A diversidade de solos presentes no território brasileiro é uma das principais razões pelas quais o país é capaz de produzir uma grande variedade de culturas. Segundo a Embrapa, existem mais de 70 tipos de solos no Brasil, com características distintas que permitem o cultivo de diferentes espécies vegetais.
No entanto, a maioria desses solos apresenta alguma limitação para a agricultura, como acidez excessiva, baixa fertilidade ou presença de elementos tóxicos. É nesse contexto que a calagem se torna importante para a produção agrícola brasileira.
O processo de correção de acidez do solo, através do uso de calcário ou Fertical, desempenha um papel crucial no fornecimento de nutrientes essenciais para o crescimento das plantas, resultando em uma série de benefícios para o sistema solo-planta, como segue:
Ao elevar o pH do solo, aumenta-se a disponibilidade da maioria dos nutrientes. Isso ocorre porque muitos nutrientes, como fósforo, potássio e micronutrientes, são mais facilmente absorvidos pelas raízes das plantas em solos com pH mais neutro.
O calcário ou a Fertical utilizados na calagem são uma fonte de cálcio e magnésio. Esses dois nutrientes são essenciais para o crescimento saudável das plantas. O cálcio desempenha um papel importante na formação de células e na resistência das plantas a doenças, enquanto o magnésio é um componente essencial da clorofila, responsável pela fotossíntese.
Em solos ácidos, o alumínio, o manganês e o ferro podem se tornar tóxicos para as plantas. A neutralização da acidez, torna esses elementos menos tóxicos e permite que as plantas cresçam com mais saúde. O gráfico de Malavolta (1980) destaca uma faixa de pH específica na qual os nutrientes são mais facilmente absorvidos pelas plantas.
J.B. Matiello – Eng Agr Fundação Procafé e Cláudio M. Barbosa Agronomando e Tec Agr , Consultor
Os solos utilizados para o cultivo de cafezais são, normalmente, ácidos e pobres em cálcio e magnésio, necessitando de correções, visando o bom desenvolvimento e maior produtividade dos cafeeiros.
A correção pode ser feita com o uso de calcário comum ou com calcário calcinado ou cal dolomítica, essa com maior solubilidade. Algumas pesquisas já realizadas mostram correção rápida com o uso de cal dolomítica virgem. Esta correção depende das características da cal utilizada (rocha, temperatura, moagem, hidratação etc).
No presente trabalho objetivou-se estudar a eficiência de 3 tipos de corretivos da ICAL, avaliando seu efeito corretivo e fornecimento de Ca e Mg. A pesquisa foi conduzida na Fazenda Boa Vista, município de São Francisco do Gloria, na Zona da Mata de MG, em cafezal da variedade Catucaí 785-15, com 3 anos de idade, no espaçamento de 2,80 x 0,80 m, sendo o solo do tipo LVA e a altitude das lavouras de 700m. O ensaio foi conduzido em blocos inteiramente casualizados, com 4 tratamentos e 6 repetições. As parcelas foram compostas por 10 metros de linha de cafeeiros.
Os tratamentos ensaiados constaram de um calcário dolomítico comum, e dois tipos de cal, virgem e hidratada, mais a
testemunha, sem corretivo. Os tipos e doses de corretivo utilizados constam da tabela 1. Foi feita aplicação única, em cobertura, na faixa da linha de cafeeiros. A aplicação foi feita em fevereiro/2022 e a amostragem de solo foi feita 30 dias após aplicação. Nesse período as chuvas registradas, foram de cerca de 80 mm.
A avaliação de correção do solo foi feita através da tomada de amostras, na profundidade de 0-20 cm, em 5 pontos de cada parcela. Os parâmetros avaliados foram o pH, os teores de Ca e Mg e a saturação de bases ou V%.
Os resultados obtidos da análise de solo dos diferentes tratamentos, com tipos de corretivos, constam da tabela 1.
Verifica-se que houve diferença significativa entre tratamentos, para todos os parâmetros do solo avaliados. A correção dos parâmetros de pH, dos teores de Ca e Mg e da saturação de bases foi menor com o calcário comum, apesar da sua dose maior. Por outro lado, tanto a cal dolomítica virgem, como a hidratada, em doses equivalentes, corrigiram o pH de forma bastante expressiva, aumentando cerca de 2 unidades de pH em relação à testemunha. E, igualmente, aumentaram os teores de Ca, de Mg e a saturação do solo. Verifica-se que os níveis de pH e de Ca e Mg, obtidos com a aplicação dos dois tipos de cal, estão dentro dos níveis adequados para o bom desenvolvimento dos cafeeiros, havendo, portanto, correção apropriada no curto prazo. Em outra etapa do trabalho será avaliado o nível foliar dos nutrientes nas plantas.
Os resultados obtidos permitiram concluir que:
| Tratamentos | Parâmetros da análise química do solo, 30 dias após aplicação, na média das repetições. | |||
|---|---|---|---|---|
| pH | Ca (cmolc/dm3) |
Mg (cmolc/dm3) |
V% | |
| 1- Calcário dolomítico comum (39% de CaO e 12% de MgO) PRNT 85 - 2500 kg/ha | 5,4 b | 1,8 b | 0,9 b | 49 b |
| 2- Cal Dolimítica hidratada (48% de CaO e 24% de MgO) – 1200 kg/ha | 6,6 a | 4,1 a | 1,7 a | 79 a |
| 3- Cal dolomítica virgem (60% de CaO e 30% de MgO) – 1000 kg/ha | 6,4 a | 3,4 a | 1,9 a | 70 a |
| 4- Testemunha, sem calcário | 4,5 b | 0,9 c | 0,4 c | 35 c |
A agricultura brasileira tem um papel fundamental na economia do país e na produção de alimentos para o mundo. A diversidade e as características dos solos do Brasil são uma vantagem competitiva importante, mas é necessário corrigir suas limitações por meio da correção da acidez para garantir uma produção de qualidade e sustentável.
É importante destacar que a aplicação de calcário ou Fertical devem ser feitas com base em análises do solo e orientação técnica especializada para garantir sua eficiência e evitar prejuízos à produtividade das lavouras.